Ouvido tampado no avião, zumbido que não vai embora, dor que “lateja” à noite, tontura que faz o mundo girar. Quando algo assim aparece, a vida para. Nesta página, explico como investigo e trato os problemas do ouvido no dia a dia do consultório, o que observar nos sintomas, quais exames realmente ajudam e quando considerar cirurgia.
Principais condições que afetam o ouvido
O ouvido é “um conjunto de engrenagens”: conduto auditivo, membrana timpânica, ossículos, cóclea, nervo auditivo e o labirinto (que rege o equilíbrio). Qualquer peça que falhe muda a forma como escutamos e percebemos o espaço.
No consultório, eu começo pela conversa: quando começou, se piora à noite, se há febre, vômitos, vôos ou mergulhos recentes, uso de fones/ruído e pela otoscopia (olhada direta do conduto e do tímpano). Se necessário, complemento com audiometria, timpanometria e exames de imagem. Abaixo, um panorama objetivo das causas mais comuns.
Otites, zumbido, labirintite, perfuração timpânica e perda auditiva
Otite externa: inflamação da pele do conduto (muito comum após praia, piscina ou limpeza com hastes). Costuma doer ao tocar a orelha e pode haver secreção. O tratamento é local (limpeza e gotas específicas).
Otite média aguda: inflamação atrás do tímpano, geralmente pós-resfriado; dá dor, febre e sensação de ouvido “cheio”. Em crianças, pode acompanhar coriza e irritabilidade. O manejo pode ser analgésico e, em casos selecionados, antibiótico.
Otite serosa/crônica: líquido persistente atrás do tímpano, com redução auditiva e sensação de pressão. Em crianças, pode causar atraso de fala; avaliamos timpanometria e consideramos tubos de ventilação quando indicado.
SAIBA MAIS SOBRE OtiteZumbido (acúfeno): ruído “apitado”, “chiado” ou “pulsátil” na cabeça. Investigo exposição a ruído, medicamentos, alterações metabólicas e perdas auditivas associadas. Muitas vezes, o tratamento combina reabilitação auditiva (aparelho), ajustes de hábitos e manejo de estresse/sono. O mais importante: entender se há perda auditiva súbita associada, situação que exige ação rápida.
“Labirintite” e tonturas: o termo popular “labirintite” virou guarda-chuva para várias causas: VPPB (vertigem posicional paroxística benigna), neurite vestibular, enxaqueca vestibular, entre outras. Diferencio pela história e por manobras à beira-leito. A VPPB, por exemplo, costuma melhorar com manobras de reposicionamento (Epley). Neurite vestibular pede controle de sintomas e reabilitação vestibular.
Perfuração timpânica: pode acontecer após infecção, trauma (inclusive “tapas”) ou mergulho. A maioria cicatriza com cuidado local; quando persiste, discutimos timpanoplastia (reconstrução do tímpano). Durante a cicatrização, proteção contra água é fundamental.
SAIBA MAIS SOBRE Perfuração TimpânicaPerda auditiva existem algumas tipos, como:
- Condutiva: o som não chega bem à cóclea (cera, líquido, perfuração, ossículos).
- Sensorioneural: o problema está na cóclea/nervo (idade, ruído, vírus, causas súbitas).
- Mista: componentes condutivo e sensorioneural somados.
Em perdas súbitas, cada hora conta; em perdas crônicas, avaliamos aparelhos auditivos, proteção e, em indicações específicas, cirurgia (por exemplo, estapedotomia na otosclerose).
SAIBA MAIS SOBRE Perda auditivaSintomas que indicam problemas no ouvido
Na consulta, organizo os sintomas por tempo (agudo × crônico), intensidade, gatilhos (água, voo, posição), lateridade (um ou os dois ouvidos) e associações (febre, náusea, desequilíbrio, dor de garganta, coriza).
Dor, secreção, perda auditiva, zumbido e tontura
Dor de ouvido (otalgia): piorar ao mastigar ou tocar a orelha sugere otite externa; dor profunda com febre aponta para otite média. Dor “refletida” pode vir da garganta ou da articulação temporomandibular; por isso, sempre examino boca e orofaringe.
Secreção: a cor (clara, purulenta, sanguinolenta) e o cheiro dão pistas. Em secreção abundante e recorrente, penso em otite média crônica ou perfuração. Limpeza adequada em consultório é parte do tratamento; evitar hastes é regra.
Perda auditiva: tampão de cera dá perda súbita “mecânica” (melhora depois da remoção). Perdas progressivas exigem audiometria para mapear frequências afetadas. Perda súbita sensorioneural (instalação em horas/dias) é urgência; quanto antes tratar, melhor o prognóstico.
Zumbido: quando começa de repente, em um ouvido, com sensação de ouvido “cheio” ou tontura, ligo o alerta para perda súbita. Em zumbidos bilaterais crônicos, avalio audiometria e fatores agravantes (ruído, ansiedade, sono).
Tontura/vertigem: vertigem que piora ao deitar ou virar na cama é típica de VPPB. Tontura com náusea intensa, horas de duração após um “resfriado forte”, lembra neurite vestibular. Desequilíbrio leve, crônico, pede investigação global (inclusive neurológica, quando necessário).
Como é feita a investigação médica das doenças do ouvido
A avaliação começa pelo básico: escutar a história, olhar o ouvido com otoscópio e, quando preciso, examinar com vídeo para você ver a membrana timpânica em detalhes. Em alguns casos, uso diapasões (teste de Rinne/Weber) para diferenciar perdas condutivas de sensorioneurais. A partir daí, decido os exames que mudam conduta (nada de pedir “por pedir”).
Audiometria, timpanometria e exames de imagem
Audiometria tonal e vocal: mostra como você ouve sons graves, médios e agudos (via aérea e via óssea) e como entende a fala. Ajuda a diferenciar onde está o problema e a acompanhar evolução. Em crianças, usamos métodos lúdicos; em casos especiais, testes objetivos.
Timpanometria (imitanciometria): avalia a mobilidade do tímpano e a pressão no ouvido médio. Em otite serosa, costuma aparecer curva “achatada” (tipo B). Em disfunção da tuba auditiva, uma curva “deslocada” (tipo C) sugere pressão negativa. Os reflexos estapédicos também trazem pistas.
Emissões otoacústicas (EOA) e BERA (quando cabem): as EOAs avaliam a função das células ciliadas externas; úteis em triagens e alguns zumbidos. O BERA (potencial evocado auditivo) mede a condução do nervo auditivo; uso quando a audiometria não é confiável ou há suspeitas específicas.
Imagem (tomografia, ressonância): peço com critério. Tomografia ajuda a ver mastoide, ossículos e seios da face quando a infecção se estende ou pensamos em complicações. Ressonância avalia nervo/ângulo ponto-cerebelar em perdas assimétricas ou zumbido unilateral com suspeita de schwannoma, por exemplo.
Exames de equilíbrio (quando indicados): em vertigens persistentes, testes vestibulares ajudam a identificar o lado e a intensidade do déficit; muitas vezes, o tratamento começa já na primeira consulta com manobras e orientações.
Tratamentos para doenças do ouvido
Gosto de trabalhar por linhas de cuidado: começo pelo mais simples e seguro; reavalio; avanço quando necessário. Explico cada passo, com prós, contras e o que esperamos como resultado. Em muitos casos, pequenas mudanças no cuidado diário (higiene nasal em alérgicos, evitar objetos no ouvido, sono regular) fazem grande diferença.
Abordagens clínicas, medicamentosas e cirúrgicas
Cuidados e procedimentos em consultório.
- Limpeza do conduto (remoção de cera/micose com instrumentos ou aspiração).
- Gotas otológicas adequadas ao tipo de otite (há diferenças importantes se o tímpano está perfurado).
- Manobras para VPPB (Epley, Semont), já na primeira consulta.
- Orientações de proteção à água, retorno de voo/mergulho, cuidados com fones e ruído.
Medicamentos:
- Antiinflamatórios e analgésicos para dor aguda.
- Antibióticos apenas quando há critérios (otite média bacteriana, secreção purulenta, febre persistente), evitando uso desnecessário.
- Corticosteroides tópicos ou sistêmicos em cenários específicos (por exemplo, perda auditiva súbita, conforme protocolos).
- Em vertigens, antieméticos/vestibulolíticos por tempo curto, priorizando reabilitação.
Reabilitação auditiva e hábitos:
- Aparelhos auditivos em perdas que se beneficiam; explico modelos, testes e adaptação.
- Proteção ao ruído no trabalho/lazer (protetores, pausas).
- Higiene do sono e manejo do estresse em zumbido; quando há apneia do sono, tratar o sono melhora o zumbido em parte dos pacientes.
Cirurgias (quando indicadas):
- Timpanoplastia (reconstrução do tímpano) em perfurações crônicas.
- Tubos de ventilação em otite serosa recorrente, principalmente em crianças com prejuízo de audição/fala.
- Estapedotomia em otosclerose selecionada.
- Outras cirurgias do ouvido médio conforme o caso.
Cirurgia é decisão compartilhada: discutimos riscos, benefícios, preparo e pós-operatório (controle de dor, proteção, retornos). Nem todo caso precisa operar, às vezes, a melhor escolha é reabilitar e acompanhar.
Quando procurar um otorrinolaringologista em São Paulo
Se você está em São Paulo e tem sintomas como dor persistente, perda auditiva súbita, zumbido que começou de repente, vertigem incapacitante, secreção com mau cheiro ou episódios repetidos no ano, vale agendar avaliação.
Eu, Dr. Pedro Magliarelli, otorrinolaringologista, organizo a consulta em três etapas: escuta, exame (com vídeo quando necessário) e plano de cuidado escrito quando útil. Em perdas súbitas, priorizo encaixe rápido para não perder tempo de tratamento.
Perguntas Frequentes
Pode, principalmente quando vem com febre, secreção purulenta, piora progressiva ou quando não melhora com analgésicos simples. Dor que piora ao puxar a orelha e ao mastigar lembra otite externa; dor profunda com febre e mal-estar sugere otite média. Há também dores “refletidas” (garganta/ATM) que parecem de ouvido. Em qualquer cenário persistente, o melhor é examinar: ver o tímpano, limpar o conduto quando necessário e decidir o tratamento com base no que encontramos.
Sempre que houver perda auditiva súbita, zumbido novo unilateral, tontura forte, secreção com mau cheiro, dor com febre, trauma, ou sintomas que voltam várias vezes no ano. Em crianças, atraso de fala e dificuldade de ouvir a professora merecem avaliação com audiometria e timpanometria. Quanto mais cedo entendermos a causa, melhor a chance de recuperação e menor o impacto na rotina.
Não. Perdas condutivas por cera, líquido, disfunção da tuba ou perfuração podem ser reversíveis com tratamento clínico ou cirúrgico. Perdas sensorioneurais costumam ser permanentes, mas há exceções importantes. A perda auditiva súbita precisa de tratamento rápido, pois parte dos casos melhora. Em perdas crônicas, reabilitação com aparelho auditivo devolve qualidade de vida em muitos cenários.
A lógica clínica é a mesma (entender a causa e tratar de forma direcionada), mas as indicações mudam. Em crianças, otites serosas prolongadas podem afetar fala e aprendizado, então consideramos tubos de ventilação mais cedo quando há prejuízo auditivo comprovado. Analgésicos e antibióticos seguem doses e critérios específicos da faixa etária. A avaliação também inclui adenoide e amígdalas quando há respiração bucal/ronco.
Pelo exame. Na otite externa, o conduto está inflamado e dói ao toque; na otite média, o tímpano pode estar abaulado, opaco, com mobilidade reduzida (visto na timpanometria). Já perdas por cera dão tampão que a gente vê e remove. A audiometria diferencia se a perda é condutiva (condução do som) ou sensorioneural (nervo/cóclea). Por isso, evitar automedicação e hastes é tão importante, além de machucar, atrapalham o diagnóstico.