Dor que acorda de madrugada, ouvido “cheio”, zumbido insistente, secreção que não para. Quando a otite aparece, tudo fica mais difícil: trabalhar, dormir, até conversar. Aqui explico como eu avalio e trato otite no consultório em São Paulo, o que observar nos sintomas, como confirmo o diagnóstico, quais são as opções de tratamento e o que costuma ajudar a reduzir o risco de recorrências.
O que é a otite e como ela afeta o ouvido
Chamamos de otite a inflamação/infeção que acomete uma ou mais partes do ouvido. Pode ocorrer no conduto auditivo externo (a pele do “túnel” que leva ao tímpano), no ouvido médio (atrás do tímpano) e, mais raramente, envolver estruturas do labirinto (equilíbrio). Por isso, os sintomas variam tanto: dor, sensação de entupimento, perda auditiva temporária, secreção, febre e tontura são os mais comuns.
Na prática, começo entendendo o contexto: contato recente com água (praia/piscina), resfriado, dor ao puxar a orelha, uso de hastes, dor que piora ao mastigar, vôos, mergulhos, febre, presença de secreção.
Depois, examino com otoscópio e, quando necessário, com vídeo para que você veja o que eu estou vendo. A partir daí, diferenciarei o tipo de otite e definirei o plano.
Tipos de otite externa, média e interna
Otite externa: inflamação da pele do conduto. É muito comum após praia/piscina (“ouvido de nadador”), em quem usa hastes com frequência ou aparelhos auditivos sem higienização adequada. A pele fica irritada, às vezes com micose/bactérias associadas.
A dor aumenta ao tocar a orelha ou ao mastigar. O tratamento costuma envolver limpeza delicada no consultório e gotas específicas; orientar como proteger do contato com água é parte importante da recuperação.
Otite média aguda: geralmente vem após resfriado. O ouvido médio inflama, acumula líquido atrás do tímpano e dói bastante; pode haver febre e mal-estar. Em crianças, é muito comum (nariz e ouvido “conversam” bastante na infância).
O tratamento inclui analgésicos, controle de sintomas e, em casos selecionados, antibiótico, sempre com reavaliação para checar a resposta.
Otite média com efusão (serosa): quando o líquido atrás do tímpano não vai embora, a audição cai e a sensação de ouvido tampado persiste. Em crianças, pode impactar fala e aprendizado. A timpanometria ajuda a confirmar; a conduta vai de observação guiada a medidas clínicas e, em casos específicos, tubos de ventilação.
Otite média crônica / supurativa: inflamações de repetição podem evoluir com perfuração do tímpano e secreções recorrentes. Nessa fase, além do tratamento clínico e de limpezas em consultório, discutimos cirurgia (por exemplo, timpanoplastia) quando há indicação.
“Otite interna” (labirintite): o termo popular “labirintite” virou guarda-chuva para várias causas de vertigem. Há inflamações do labirinto/vestíbulo, mas também vertigens posicionais (VPPB), neurite vestibular e enxaqueca vestibular. A história clínica e as manobras no consultório ajudam a identificar a causa; a conduta muda bastante conforme o diagnóstico.
Sintomas mais comuns da otite
Nem toda dor de ouvido é otite e nem toda otite é igual. O padrão dos sintomas dá pistas sobre onde está o problema e qual o melhor tratamento. Organizo a avaliação por tempo (agudo × crônico), intensidade, gatilhos (água, voo, mergulho, resfriado) e associações (febre, secreção, tontura, zumbido).
Dor, secreção, febre e perda auditiva temporária
Dor de ouvido (otalgia): na otite externa, dói ao tocar a orelha ou movimentá-la; usar fones ou deitar sobre o lado afetado costuma piorar. Na otite média, a dor é mais profunda, tipo pressão; tossir ou assoar pode piorar. Dor com febre sempre pede atenção.
Secreção: pode ser clara, purulenta ou com mau odor. Em otite externa, a secreção geralmente vem do conduto inflamado; na média supurativa, pode sair pelo tímpano perfurado. A limpeza adequada e a escolha correta de gotas fazem diferença.
Febre: mais comum na otite média aguda, principalmente em crianças. O foco é controlar a dor, hidratar, avaliar ouvido e nariz, e decidir se há critério para antibiótico.
Perda auditiva temporária: o ouvido pode “desligar” por tampão de cera, líquido no ouvido médio ou edema do conduto. Em geral, é reversível quando tratamos a causa. Perda instalando de forma súbita (sem entupimento) é outra história e precisa de avaliação imediata.
Sinais de alerta: dor intensa que não melhora, febre persistente, tontura incapacitante, secreção com mau cheiro recorrente, trauma com sangramento, diabetes/imunossupressão, dor que “desce” para mandíbula/pescoço ou inchaço atrás da orelha. Esses quadros pedem consulta sem demora.
Como é feito o diagnóstico da otite
Diagnóstico sólido nasce de história clínica + exame físico. Na consulta, converso e examino com otoscopia; quando preciso, uso vídeo-otoscopia para que você veja a membrana timpânica, presença de cera, inflamação, perfuração. Em muitos casos, faço testes simples com diapasões (Rinne/Weber) e complemento com exames.
Exame físico, otoscopia e timpanometria
Exame físico completo: não olho só o ouvido: avalio nariz (rinite, secreção), garganta, gânglios e sinais gerais de infecção. Em crianças, observo respiração bucal, adenoide aumentada e amígdalas.
Otoscopia e vídeo: a otoscopia mostra o conduto e o tímpano. No consultório, limpo com cuidado quando há secreção/cera para ver melhor. Com vídeo, você entende comigo por que dói, de onde vem a secreção e o que vamos fazer.
Timpanometria (e audiometria quando necessário): a timpanometria avalia a mobilidade do tímpano e a pressão no ouvido médio, excelente para diferenciar otite serosa de outras causas de entupimento. Se a queixa for perda auditiva/zumbido, peço audiometria para mapear frequências afetadas. Em casos específicos, imagem (TC/RNM) pode ser útil.
Nem toda dor de ouvido nasce no ouvido. ATM (articulação), garganta e dente podem “mandar” dor para o ouvido. Por isso, examino tudo e, quando necessário, integro com outros especialistas.
Opções de tratamento para otite
Trato otite por etapas, priorizando o que é eficaz e seguro. Explico prós/contras, o que esperar em cada fase e quando reavaliar. Em muitos casos, pequenas orientações de higiene e proteção já evitam recaídas.
Uso de antibióticos, limpeza e, em casos graves, cirurgia
Otite externa
- Limpeza do conduto no consultório (aspiração delicada, instrumentos finos).
- Gotas: escolho de acordo com o quadro e se há ou não perfuração do tímpano.
- Orientações: proteger da água (tampão/evitar mergulho), nada de hastes; secar a orelha por fora após banho.
- Analgésicos e anti-inflamatórios conforme a dor.
Otite média aguda
- Dor sob controle é prioridade (analgésicos, medidas locais).
- Antibiótico quando há critérios (febre persistente, secreção, piora, idade/condições clínicas).
- Nariz em dia: se rinite/sinusite entram na história, trato o nariz junto.
- Revisão programada para checar evolução e evitar cronicidade.
Otite média com efusão (serosa)
- Acompanhamento por período definido; muitas resolvem sozinhas.
- Tratamento do nariz (rinite) quando contribui para a disfunção da tuba auditiva.
- Em crianças com impacto na fala/audição, avalio tubos de ventilação.
Otite crônica/perfuração
- Cuidados periódicos em consultório para controlar secreção e manter o canal limpo.
- Decisão compartilhada sobre cirurgia (ex.: timpanoplastia) quando há indicação funcional/infecções recorrentes.
- Proteção rigorosa contra água.
Vertigens (quando associadas)
- Manobras para VPPB (frequentemente resolvem em consultório).
- Controle de náusea por curto período e reabilitação vestibular quando necessário.
Sobre antibiótico: uso quando realmente traz benefício. Otite externa muitas vezes melhora com limpeza + gotas. Na média aguda, há critérios. O mais importante é revisar e ajustar a conduta conforme a resposta.
Prevenção de recorrência da otite
Prevenir otite é tão importante quanto tratar. Aqui estão as orientações que mais funcionam no dia a dia:
- Nada de hastes dentro do ouvido. Elas irritam a pele, empurram cera e podem perfurar o tímpano.
- Cuidado com a água: após banho/piscina, seque a orelha por fora. Se você tem otite externa de repetição, converso sobre barreiras e cuidados específicos.
- Nariz tratado, ouvido agradece: rinite e sinusite mal controladas aumentam o risco de otite média.
- Evitar trauma: tapas, queda com pancada na orelha, mergulhos bruscos.
- Vacinação e rotina pediátrica: em crianças, calendário em dia, aleitamento quando possível e evitar exposição passiva à fumaça ajudam muito.
- Revisões programadas: quem tem histórico de otite crônica se beneficia de acompanhamentos periódicos para manter tudo em ordem.
Se você tem episódios repetidos ou uma perfuração conhecida, combinamos um plano de manutenção para reduzir recaídas e saber quando voltar ao consultório.