Ronco alto, pausas para respirar observadas por outra pessoa, cansaço ao acordar como se a noite tivesse sido “picada”. Quando a apneia do sono entra na rotina, o corpo trabalha em “modo emergência” e o dia perde eficiência.

O que acontece no corpo durante a apneia do sono

Dormir bem é manutenção do cérebro e do coração. Na apneia obstrutiva do sono (AOS), a via aérea relaxa além do adequado durante o sono e colapsa. O ar tenta passar, encontra resistência e a respiração para ou fica muito curta

O cérebro percebe a queda do oxigênio, dá um “tranco” para reabrir a passagem e você microdesperta. Isso pode se repetir dezenas de vezes por hora, e quase sempre a pessoa não percebe.

Esse ciclo rouba estágios profundos do sono, derruba a oxigenação, acelera o coração e aumenta a pressão arterial à noite. O resultado é dia lento, sono não reparador, memória falhando, irritabilidade e aumento do risco de acidentes. Em longo prazo, a AOS se associa a pior controle de pressão, arrtimias, diabetes mais difícil e ganho de peso, fechando um círculo ruim.

Pausas respiratórias e queda da oxigenação

Chamo de apneia quando há pausa completa do fluxo de ar por pelo menos 10 segundos. Quando o fluxo reduz de forma importante (com queda de oxigênio ou microdespertar), é hipopneia. A soma desses eventos por hora gera o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH), que classifica a gravidade: leve, moderada ou grave. O número por si só não conta toda a história; avalio também queda de oxigênio, fragmentação e sintomas diurnos para definir a melhor estratégia.

Sinais e sintomas que exigem atenção

Nem sempre quem tem apneia percebe as pausas. Muitas vezes, quem entrega a pista é a parceira(o). Outras vezes, é o cansaço e a sonolência ao longo do dia que fazem a ficha cair.

Ronco alto, pausas na respiração, sonolência diurna

  • Ronco frequente, principalmente alto e noturno, pior com álcool.
  • Pausas observadas para respirar, engasgos ou acordar ofegante.
  • Sonolência diurna, cochilos involuntários, perda de foco em reuniões.
  • Dor de cabeça ao despertar, boca seca pela manhã.
  • Irritabilidade, queda de memória e baixa produtividade.
  • Pressão arterial difícil de controlar, desempenho físico reduzido.
  • Em crianças: ronco, sono agitado, pausas, respiração bucal, agitação/hiperatividade e queda de rendimento escolar.

Se você marcaria “sim” para três ou mais itens, especialmente ronco + sonolência + pausas observadas, vale investigar.

Como é feito o diagnóstico da apneia do sono

A avaliação começa pela conversa (horários, álcool/cafeína, ganho de peso, sono, medicações, posição ao dormir) e pelo exame em consultório: nariz (fluxo, septo, conchas), orofaringe (palato, úvula, amígdalas), base da língua e pescoço. Quando necessário, faço endoscopia nasal para ver pontos de estreitamento. Em seguida, meço objetivamente o sono.

Polissonografia e análise da gravidade

A polissonografia registra respiração, oxigenação, ronco, estágios do sono, batimentos e movimentos. Pode ser realizada em laboratório (monitorada) ou domiciliar (aparelhos portáteis em casos selecionados). O laudo informa:

  • IAH (apneias + hipopneias por hora);
  • Tempo e profundidade das dessaturações;
  • Arquitetura do sono (quanto de sono REM e N3);
  • Posição em que os eventos são piores;
  • Estadiamento da gravidade (leve, moderada, grave).

Eu explico o laudo ponto a ponto e, junto com o exame físico, defino qual caminho tem mais chance de funcionar na sua rotina.

Opções de tratamento para apneia do sono

Não existe “remédio único”. Eu trabalho por linhas de cuidado: hábitos que sempre ajudam, dispositivos que abrem a via aérea e cirurgias quando há bloqueios anatômicos ou quando os dispositivos não se encaixam.

CPAP, dispositivos orais, cirurgia personalizada

1) Medidas comportamentais (quase sempre entram)

  • Horários regulares para dormir e acordar;
  • Evitar álcool e refeições pesadas 2–3 horas antes de deitar;
  • Perda de peso quando há excesso (pequenas reduções já melhoram);
  • Dormir de lado em roncadores posicionais;
  • Nariz em dia: lavagem salina e sprays quando há rinite; tratar sinusites e desvio de septo quando indicado;
  • Refluxo sob controle: jantar mais cedo, elevar cabeceira, ajustes de dieta e medicação quando necessário.

2) CPAP (pressão positiva contínua): mantém a via aérea aberta com fluxo de ar suave. É a opção com melhor eficácia para apneia moderada/grave e para parte dos casos leves com sintomas importantes. A adaptação depende de máscara correta, pressão ajustada e nariz funcionando. No consultório, eu otimizo o nariz (técnica de spray, lavagem, tratamento de rinite) e, quando necessário, discuto septoplastia/turbinoplastia para aumentar adesão e conforto com o CPAP.

3) Dispositivo intraoral (avanço mandibular): feito por odontologia do sono, projeta a mandíbula levemente para frente, ampliando o espaço da via aérea. É boa opção para ronco e apneia leve a moderada, e para quem não se adapta ao CPAP. Avalio sua anatomia, posicionamento e o laudo para indicar com segurança; acompanho junto com o dentista para ajustes.

4) Combinação e personalização: muitas vezes o melhor resultado vem de combinar: nariz livre + CPAP com pressões menores; ou nariz livre + aparelho oral; ou posicionamento + redução de peso. O plano se ajusta com o seu retorno — o objetivo é consistência.

Cirurgias para Apneia do Sono

Cirurgia não é atalho; entra quando existe obstáculo anatômico relevante ou quando dispositivos falharam/foram recusados. Eu faço planejamento funcional, com metas claras: reduzir colapso, abrir espaço e facilitar o tratamento de manutenção.

Faringoplastia, uvulopalatoplastia, septoplastia

Faringoplastias funcionais: são técnicas que reorientam e tensionam a musculatura do palato e das paredes laterais da faringe para reduzir o colapso durante o sono. A escolha da técnica depende da anatomia (espessura do palato, tonsilas, formato das paredes). O objetivo é diminuir o ronco e melhorar o IAH quando o palato é o principal ponto de colapso. O pós-operatório exige dieta pastosa, analgesia e acompanhamento.

Uvulopalatoplastia: procedimento no palato mole e úvula para ampliar a passagem. Em perfis bem selecionados, reduz ronco e ajuda em AOS leve/moderada. Em muitos casos, prefiro faringoplastias funcionais modernas por preservarem melhor a função e a vibração do palato. A indicação é individual.

Septoplastia (e turbinoplastia): cirurgias do nariz aliviam obstrução e melhoram ventilação. Elas não “curam” apneia sozinhas, mas fazem grande diferença para ronco posicional e, sobretudo, para adaptação ao CPAP ou ao aparelho oral. Quando há desvio de septo ou conchas muito aumentadas, discutir a correção vale a pena.

Outras abordagens (quando indicado): tonsilas muito grandes em adultos e, principalmente, em crianças, podem ser tratadas com amigdalectomia (e adenoidectomia nas crianças). Base de língua e estruturas relacionadas são avaliadas caso a caso. O foco, sempre, é funcionalidade: abrir passagem com o menor trauma possível.

Recuperação e expectativas: explico riscos, tempo de retorno e limites de cada cirurgia. O resultado costuma ser progressivo nas primeiras semanas, à medida que a mucosa desincha. Mesmo após cirurgia, manutenção com hábitos, controle do peso e, se preciso, CPAP/aparelho oral continua importante.

Exames Relacionados a apneia

Além da polissonografia, alguns exames e avaliações de consultório ajudam a entender onde a via aérea colapsa e como otimizar o tratamento.

Avaliação do Ronco

Registro do padrão do ronco (intensidade, posição), exame físico detalhado de nariz, palato, úvula, amígdalas e base de língua, além de análise de hábitos noturnos (álcool, horários, telas). Em casos selecionados, discuto avaliação dinâmica da via aérea durante o sono, quando o resultado muda a conduta cirúrgica.

Perguntas Frequentes

“Cura definitiva” não é a promessa para todos, porque a AOS depende de anatomia, peso, hábito e sono. O que eu busco é controle estável: IAH reduzido, ronco mínimo, sono reparador e dia produtivo. Em alguns perfis, CPAP resolve por completo; em outros, aparelho oral ou cirurgia funcional trazem o melhor equilíbrio. Às vezes, a resposta vem da combinação dessas frentes.

Sim. A apneia desorganiza o sistema nervoso autônomo, aumenta picos de pressão de madrugada, favorece arrtimias e se associa a maior risco cardiovascular. Tratar reduz sonolência, melhora pressão e ajuda no metabolismo. Em quem já tem doença cardíaca, controlar a apneia faz parte do plano global.

Não para todos, mas é o padrão para AOS moderada/grave. Para leve com muito sintoma ou comorbidades, também pode ser excelente. Quando não há adaptação, discuto aparelho oral, cirurgias funcionais e combinações (ex.: cirurgia nasal para melhorar CPAP). O melhor tratamento é o que você usa com regularidade e funciona.

Sonolência com risco de acidentes, queda de memória e atenção, pressão difícil de controlar, arrtimias, piora do metabolismo (açúcar, peso), humor instável e qualidade de vida menor. Em crianças, há impacto em crescimento, aprendizado e comportamento. Tratar muda o dia e o prognóstico.