Nariz trancado que não passa, dor na face que piora ao abaixar a cabeça, secreção espessa que insiste em voltar, perda de olfato. Quando a sinusite entra na rotina, dormir, trabalhar e treinar ficam mais difíceis. 

Aqui eu organizo como avalio e trato sinusite no consultório em São Paulo: o que diferencia aguda de crônica, como confirmo o diagnóstico, o que realmente funciona no tratamento e como prevenir novas crises.

O que é sinusite e como ela se desenvolve

“Sinusite”, tecnicamente, é rinossinusite: inflamação da mucosa do nariz e dos seios da face (maxilares, etmoidais, frontais e esfenoidais). Os seios da face são cavidades cheias de ar que ventilam e drenam por pequenos canais para dentro do nariz. 

Quando a mucosa incha, esses canais fecham, a ventilação cai e a secreção acumula, consequentemente vem a sensação de peso na face, obstrução nasal, queda de olfato e, em alguns casos, febre.

A sequência típica é: um resfriado ou crise de rinite altera a mucosa → os óstios de drenagem apertam → a secreção não drena → cresce a chance de infecção. Em quem já tem desvio de septo, conchas nasais aumentadas ou pólipos, esse funil é ainda mais estreito. Por isso, tratar o nariz (lavagem e sprays) é tão importante quanto lidar com a crise de sinusite em si.

Diferença entre sinusite aguda e crônica

A diferença principal está no tempo e na persistência:

  • Aguda: sintomas até 4 semanas, geralmente após resfriado. Pode melhorar sozinha com medidas de suporte, mas, quando há sinais de bactéria (dor facial importante, secreção purulenta persistente, febre), discutimos antibiótico.
  • Subaguda: entre 4 e 12 semanas; costuma ser “arrasto” de um quadro que não resolveu.
  • Crônica: sintomas por 12 semanas ou mais, com pioras e melhoras. Em geral, há combinação de inflamação crônica (rinite, pólipos) com fatores anatômicos que dificultam a drenagem. O tratamento mira manutenção (lavagem + corticoide nasal) e, quando a clínica é insuficiente, cirurgia endoscópica para restaurar ventilação e acesso do medicamento à mucosa.

Saber em qual faixa você está muda a estratégia. Crise aguda pede alívio e resolução; crônica pede um protocolo de rotina para manter a mucosa saudável e reduzir recaídas.

Sintomas mais comuns da sinusite

Sinusite não é “toda gripe forte”. Há sinais que nos guiam para o diagnóstico e ajudam a separar o que é uma virose passageira do que virou rinossinusite bacteriana ou crônica.

Dor facial, secreção nasal e febre

  • Dor/pressão na face: nas maçãs do rosto (seios maxilares), entre os olhos (etmoides), na testa (frontais) ou mais ao fundo (esfenóide). Piora ao abaixar a cabeça ou ao caminhar/treinar.
  • Secreção nasal espessa: amarelada ou esverdeada, que pode escorrer para a garganta (pós-nasal) e causar tosse. Secreção fétida sugere infecção bacteriana.
  • Nariz entupido: sensação de passagem de ar estreita. Em crônicos, o entupimento é quase a regra.
  • Queda do olfato/paladar: muito frequente; em pólipos, pode ser marcante e duradoura.
  • Febre e mal-estar: mais comuns em crises agudas com componente bacteriano.
  • Dor de cabeça: costuma acompanhar, mas não substitui os outros sinais.

Sinais de alerta (avaliar sem demora): inchaço/vermeli­dão ao redor dos olhos, visão dupla, febre alta com dor facial intensa e assimétrica, rigidez de nuca, confusão, dor de cabeça muito forte diferente do habitual, sangramento nasal importante que não cede com compressão correta.

Como é feito o diagnóstico da sinusite

No consultório, eu começo pela história (tempo de sintomas, número de crises no ano, relação com resfriados e alergias, impacto no sono, profissão, exposição a poeira/químicos) e sigo para o exame: por fora (sensibilidade, pontos de dor) e por dentro, com endoscopia nasal quando indicado.

Exame clínico, endoscopia e tomografia

Exame clínico direcionado: procuro os focos de dor, avalio dentes (raiz de molares superiores pode simular sinusite maxilar), ATM e garganta. Também observo sinais de rinite e respiração bucal.

Endoscopia nasal: com uma câmera fina e anestesia tópica, vejo septo, conchas, meato médio (porta de drenagem dos seios), presença de secreção, pólipos, contato entre estruturas, crostas e pontos de sangramento. Mostro as imagens para você entender o “porquê” do entupimento e como o tratamento proposto ajuda.

Tomografia de seios da face: peço quando preciso definir extensão da doença, investigar crônica, programar cirurgia endoscópica ou quando a crise aguda foge do padrão. A tomografia mostra anatomia, bloqueios e espessamento de mucosa. Não é exame de triagem para qualquer resfriado, pois uso quando o resultado muda conduta.

Outros exames (situações selecionadas): testes alérgicos quando há forte suspeita de rinite alérgica; cultura em secreções atípicas ou refratárias; avaliação odontológica se há dor localizada nos molares com alterações maxilares. O foco é direcionar, não colecionar exames.

Tratamentos mais indicados para sinusite

Eu trabalho por linhas de cuidado. Primeiro, medidas que desinflamam a mucosa e abrem caminho para a drenagem; depois, ajuste com medicação dirigida; por fim, quando a anatomia bloqueia o progresso, cirurgia endoscópica para restaurar ventilação e facilitar o tratamento tópico a longo prazo.

Medicamentos, irrigação nasal e cirurgia endoscópica

1) Base para quase todos os casos

  • Irrigação/ lavagem nasal com solução salina: reduz secreção, remove alérgenos e prepara a mucosa para o spray. Ensino técnica correta (fluxo gentil, cabeça inclinada, sem “queimar” nem escorrer para o ouvido).
  • Corticoide nasal (spray): pilar do controle na rinossinusite crônica e nas crises com inflamação importante. Explico dose e técnica de aplicação (apontar para a orelha, longe do septo; não inspirar forte depois).
  • Analgesia: controlar dor é parte do tratamento, pois melhora sono e adesão às outras medidas.
  • Hidratação e sono: simples, mas práticos; ajudam a fluidificar secreção e reduzir despertares.

2) Antibiótico: quando precisa e quando não
Crises virais não pedem antibiótico. Eu considero nos quadros com critério: sintomas que não melhoram após 7–10 dias, piora dupla (melhorou e piorou de novo), dor facial importante associada a secreção purulenta e febre. A escolha, a duração e a reavaliação são combinadas caso a caso. Menos é mais quando o quadro é inflamatório sem sinais de bacteriana.

3) Outras medicações

  • Antihistamínicos: úteis quando a rinite alérgica está junto (espirros, coceira, coriza clara).
  • Descongestionantes tópicos: se usados, poucos dias para evitar efeito rebote (rinite medicamentosa).
  • Corticoide oral: reservo para pólipos volumosos ou crises inflamatórias específicas, por tempo curto, com discussão de risco/benefício.
  • Antileucotrienos: opção em perfis selecionados, especialmente com asma.

4) Cirurgia endoscópica dos seios da face (CENSF)
Indico quando:

  • rinossinusite crônica que não responde a protocolo clínico bem feito;
  • existem pólipos que recidivam mesmo com manutenção adequada;
  • crises recorrentes com alterações tomográficas que justificam ampliar ventilação/drenagem;
  • surgem complicações ou confirmação de doenças odontogênicas de difícil resolução.

Como funciona: por via endoscópica, sem cortes externos, remo­vo tecido doente, amplio as vias de drenagem e restauro a ventilação dos seios. O objetivo não é “curar para sempre”, e sim criar um caminho para que a terapia tópica (lavagens e corticoide nasal) funcione melhor e com menos crises. O pós-operatório inclui lavagens frequentes, uso de spray e revisões para limpeza e acompanhamento.

5) Balão (dilatação)
Pode ser discutido em perfis específicos com obstruções pontuais, mas não substitui a cirurgia endoscópica quando existe doença inflamatória extensa ou pólipos. A indicação é criteriosa.

6) Manutenção
Em quem tem crônica ou pólipos, o “segredo” não é uma cirurgia perfeita, e sim manter a mucosa saudável: lavagens, corticoide nasal corretamente e revisões programadas para detectar recidiva cedo.

Como prevenir crises de sinusite

Prevenir é tão importante quanto tratar. A maioria das recaídas tem a ver com rinite descontrolada, técnica ruim de spray/irrigação ou ambiente que sabota o nariz.

Cuidados diários e controle de alergias

  • Rotina de lavagem nasal (diária ou nas épocas de crise): limpa a mucosa, remove alérgenos e secreção antes que vire problema.
  • Spray nasal bem aplicado: pouco adianta prescrever se a aplicação irrita o septo e você abandona por sangramento. Eu ensino a técnica e ajusto o tipo de spray conforme a sensibilidade.
  • Controle da rinite: capa antiácaro, ventilação adequada do quarto, filtros limpos, revisão do uso de descongestionante (evitar uso contínuo).
  • Hidratação/umidade: beber água; em ambientes muito secos, avaliar umidificação (sem excessos).
  • Alergias e asma: quando presentes, tratar de forma integrada. Em alérgica persistente, imunoterapia pode reduzir a frequência de crises a médio prazo.
  • Odontologia em dia: focos dentários podem ser origem de sinusite maxilar recorrente.
  • Evitar fumaça e irritantes: pioram a inflamação e a recuperação.
  • Sono: dormir bem desinflama; álcool perto de dormir costuma piorar ronco e congestão.
  • Esporte: atividade física regular melhora a função respiratória — ajusto orientações na fase aguda para não piorar dor.

Se, mesmo com tudo isso, você tem muitas crises no ano ou sintomas que nunca zeram, faz sentido reavaliar o plano e discutir cirurgia funcional.

Perguntas Frequentes

“Cura” no sentido de nunca mais ter sintomas pode não ser uma meta realista para todos. O que buscamos é controle estável: menos crises, sono melhor, olfato recuperado em parte e previsibilidade. Em muitos casos, com lavagem nasal, corticoide tópico correto e, quando indicado, cirurgia endoscópica, o paciente volta a viver sem “pensar no nariz” todos os dias. O acompanhamento regular mantém o ganho.

O procedimento é por via endoscópica, sem cortes externos. O pós-operatório costuma cursar com pressão e congestão, mais do que “dor forte”, e isso melhora com lavagens, spray e analgésicos simples. Programo revisões para limpeza e checagem de cicatrização. Cada caso tem seu ritmo, e eu explico o cronograma antes de operar.

Pode. O nariz e o ouvido médio se comunicam pela tuba auditiva. Quando o nariz está inflamado e obstruído, a pressão do ouvido médio não equaliza bem, vem pressão/dor no ouvido e sensação de “ouvido tampado”. Tratar o nariz costuma resolver a queixa auditiva associada. Em crianças, isso é ainda mais frequente.

Não. A maior parte das crises tem componente viral/inflamatório e melhora com lavagem + corticoide nasal + analgesia. Antibiótico entra quando há critérios (piora dupla, secreção purulenta persistente com dor facial relevante e febre, duração prolongada sem melhora). O uso responsável evita efeitos colaterais e resistência bacteriana e, na prática, funciona melhor.