Labirintite: Sintomas, Causas e Como Tratar – Guia do Otorrino
Postado em: 17/10/2025
A cena é conhecida: o mundo começa a girar sem aviso, o estômago embrulha, andar em linha reta vira tarefa impossível. Muita gente chama isso de labirintite, mas, na maior parte das vezes, o nome correto é vertigem por alguma alteração do sistema do equilíbrio.
Este guia explica, de forma prática e direta, o que está por trás desses episódios, como diferenciar as causas, quando investigar com urgência e quais tratamentos realmente funcionam no dia a dia.

O que as pessoas chamam de “labirintite”
No uso popular, labirintite significa “qualquer tontura”. Na medicina, o termo designa uma inflamação do labirinto que, em geral, vem acompanhada de perda auditiva e zumbido no ouvido acometido.
A maioria dos quadros que fazem o ambiente girar, no entanto, não é labirintite verdadeira; são disfunções do sistema vestibular periférico (o “nível do ouvido interno”) ou do controle central (tronco cerebral e cerebelo).
Vertigem x tontura: como diferenciar
Nem toda sensação estranha é vertigem. Vertigem é a ilusão de movimento, pois o mundo gira, balança ou você parece estar rodando. Tontura pode ser só instabilidade, cabeça “leve”, visão embaçada ao levantar ou desequilíbrio sem giro.
Quando há vertigem verdadeira, especialmente desencadeada por movimentos da cabeça ou mudanças de posição, o problema costuma nascer no sistema vestibular.
Quando a queixa é principalmente desmaio iminente, visão escura e queda de pressão, outras causas, como cardiovasculares e metabólicas, entram na investigação.
Principais causas de “labirintite”
Diferentes doenças podem provocar vertigem. Saber como começou, quanto dura cada crise e o que acompanha o episódio é o atalho para o diagnóstico correto.
Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB)
É a causa mais comum de vertigem. Pequenos cristais de carbonato de cálcio, como os otólitos, se soltam e migram para canais do labirinto.
Ao virar na cama, olhar para cima ou se abaixar, esses cristais deslocam o líquido dentro do canal e geram uma sensação intensa e curta de giro, que dura segundos a poucos minutos, muitas vezes com náusea, mas sem perda auditiva.
O exame no consultório reproduz a crise com movimentos específicos, e a melhora costuma ser rápida após manobras de reposicionamento.
Neurite vestibular e a “labirintite” verdadeira
A neurite vestibular é uma inflamação do nervo que leva informações de equilíbrio do ouvido ao cérebro, normalmente por causa viral.
Provoca vertigem intensa e contínua, que pode durar dias, com náuseas e vômitos importantes, piorando com qualquer movimento.
Quando, além da vertigem, surge perda auditiva no mesmo lado, o quadro é chamado de labirintite no sentido estrito, porque o processo atinge o labirinto auditivo.
Em ambos, a recuperação depende de controlar a fase aguda e estimular o cérebro a compensar o desequilíbrio.
Doença de Ménière
Caracteriza-se por crises de vertigem que duram de 20 minutos a algumas horas, associadas a zumbido, sensação de ouvido cheio e perda auditiva flutuante no início, que pode se tornar definitiva com o tempo.
A causa envolve alterações na pressão dos líquidos do labirinto (hidropsia endolinfática). O controle passa por mudanças dietéticas, medicações e, em casos selecionados, procedimentos para reduzir a pressão no ouvido interno.
Enxaqueca vestibular (ou migrânea vestibular)
É uma variante da enxaqueca em que a vertigem é protagonista. As crises podem durar minutos a horas, às vezes sem dor de cabeça, e vêm com fotofobia, fonofobia e intolerância a movimento.
Muitas pessoas têm histórico de enxaqueca clássica ou gatilhos típicos, como privação de sono e certos alimentos.
O tratamento combina medidas de estilo de vida e, quando indicado, medicações preventivas de enxaqueca.
Outras causas: ouvido médio, remédios e alterações centrais
Otite média, perfurações de tímpano e cirurgias no ouvido podem provocar vertigem em contextos específicos.
Alguns medicamentos são ototóxicos e afetam a função vestibular (antibióticos aminoglicosídeos, por exemplo).
Já as vertigens de origem central (cerebelo e tronco) costumam vir com sinais neurológicos associados, como visão dupla, fala arrastada, fraqueza, e exigem abordagem imediata.
Ansiedade e hiperventilação podem piorar a percepção da tontura, mas não explicam crises com sinais objetivos ao exame.
Sintomas mais comuns e o que cada um sugere
A linguagem do corpo ajuda a diferenciar as causas. Observar tempo, gatilhos e acompanhamentos direciona a conduta.
Crise súbita e curta ao virar a cabeça
Se a vertigem surge ao virar na cama, olhar para cima ou se abaixar e dura segundos, com melhora entre os episódios, o padrão aponta para VPPB.
O mal-estar pode persistir por horas por causa do enjoo, mas o giro mesmo é breve e reproduzível. Muitas pessoas relatam “acordei e o quarto girou quando virei de lado”.
Tontura contínua por dias, com náusea forte
Vertigem ininterrupta, pior com qualquer movimento, que se arrasta por dias e derruba a rotina lembra neurite vestibular.
Nos primeiros dois a três dias, o corpo tenta compensar e os olhos podem apresentar nistagmo (movimento involuntário). Surge aversão a movimentos de cabeça e a sensação de que “tudo piora ao levantar”.
Zumbido e perda auditiva junto com vertigem
Quando a vertigem vem com zumbido e queda do volume no mesmo ouvido, duas hipóteses ganham força: doença de Ménière (crises de horas, flutuação auditiva) e labirintite verdadeira (inflamação que acomete audição e equilíbrio).
Mudanças na qualidade do zumbido e sensação de pressão no ouvido ajudam a refinar a avaliação.
Quando procurar atendimento com urgência
Nem toda vertigem é grave, mas alguns sinais exigem ação imediata para descartar problemas centrais e outras emergências.
Sinais neurológicos e risco de AVC
Vertigem acompanhada de fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, visão dupla, queda súbita sem motivo, dor de cabeça explosiva ou alteração de nível de consciência não deve esperar.
Esses sinais podem indicar AVC ou outra condição neurológica aguda. Nesses cenários, o caminho é serviço de urgência com avaliação neurológica e exames de imagem quando indicados.
Perda auditiva súbita e outras urgências
Perda auditiva súbita, com ou sem zumbido, é urgência otológica e precisa ser avaliada rapidamente para aumentar as chances de recuperação.
Trauma na cabeça, febre alta persistente e vômitos incoercíveis também justificam avaliação imediata, tanto para tratar o sintoma quanto para garantir hidratação e segurança.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico nasce de uma boa conversa e de um exame físico dirigido. Em muitos casos, os testes no consultório fecham a hipótese. Exames complementares entram quando há dúvida, gravidade, cronicidade ou preparação para reabilitação.
História clínica e exame físico dirigidos
O primeiro passo é entender como começaram as crises, quanto duram, o que desencadeia e o que acompanha (zumbido, perda auditiva, fotofobia).
Perguntas sobre infecções recentes, estresse, medicações novas e histórico de enxaqueca fazem parte do roteiro.
No exame, observar movimentos dos olhos, equilíbrio em pé, marcha e audição cria um mapa do problema. A pressão arterial e a glicemia podem ser avaliadas, especialmente quando a queixa é mais de desmaio do que de giro.
Testes no consultório: Dix-Hallpike, avaliação ocular e HINTS
Para VPPB, o teste Dix-Hallpike reproduz a vertigem ao posicionar a cabeça de maneira específica, e o profissional observa os olhos em busca de nistagmo típico.
Na suspeita de neurite vestibular, o exame HINTS (Head-Impulse, Nystagmus, Test of Skew), quando realizado por profissional capacitado, ajuda a distinguir causas periféricas de centrais em crises agudas.
Avaliações simples de marcha tandem, Romberg e teste do impulso cefálico somam informações valiosas.
Exames complementares: audiometria, VNG e imagem
Audiometria documenta a audição quando há zumbido ou perda auditiva. Videonistagmografia e calorimetria medem a resposta do labirinto e orientam reabilitação vestibular.
Ressonância magnética é indicada quando há sinais neurológicos, história atípica, piora progressiva sem explicação ou para excluir causas centrais. Exames de sangue entram conforme a hipótese clínica; na maioria dos casos, não são decisivos.
Tratamentos que funcionam na prática
O tratamento depende da causa. Em comum, há dois princípios: aliviar a fase aguda sem prolongar a recuperação e estimular o cérebro a compensar o desequilíbrio o quanto antes.
Manobras de reposicionamento para VPPB
Na VPPB, o tratamento de escolha são as manobras de reposicionamento. Elas guiam os cristais de volta ao local correto dentro do labirinto.
A mais conhecida é a manobra de Epley, indicada para o canal posterior; há variações para outros canais quando necessários.
Feitas corretamente, costumam aliviar a vertigem de forma rápida, às vezes em uma única sessão. Pode restar uma sensação de instabilidade leve por alguns dias, que melhora com exercícios e retorno gradual às atividades.
Medicamentos: quando ajudam e quando atrapalham
Anti-eméticos e sedativos vestibulares podem aliviar náuseas e desconforto na fase aguda de neurite vestibular ou VPPB, mas o uso deve ser curto.
Se tomados por muitos dias, eles atrasam a compensação central, prolongando a tontura residual.
O objetivo é usar o suficiente para permitir hidratação, sono e início da reabilitação. Em Ménière, algumas medicações específicas podem ser usadas para reduzir a frequência das crises; a escolha é individualizada.
Em enxaqueca vestibular, fármacos preventivos de enxaqueca podem reduzir a vertigem.
Reabilitação vestibular e retorno às atividades
Exercícios de reabilitação vestibular ensinam o cérebro a recalibrar a orientação no espaço. Eles provocam habitação controlada aos estímulos que incomodam, melhoram estabilidade e reduzem a chance de quedas.
Começar cedo, assim que a fase mais intensa de náusea ceder, costuma encurtar a recuperação. O retorno às atividades deve ser gradual, com metas claras e ajustes quando houver piora transitória.
Manejo de Ménière: dieta, medicações e opções avançadas
Na doença de Ménière, reduzir sal na dieta ajuda a estabilizar a pressão dos líquidos do labirinto em algumas pessoas. Evitar álcool em excesso e controlar estresse e sono reduz gatilhos.
Em quadros de difícil controle, podem ser usados tratamentos intratimpânicos orientados pelo otorrino; em situações específicas, procedimentos cirúrgicos são considerados. O acompanhamento inclui audiometria periódica para monitorar a audição.
Neurite vestibular: do controle da crise à compensação
Na neurite vestibular, os primeiros dias exigem descanso relativo, hidratação e controle de náusea. Uma vez estabilizado, entra a reabilitação com exercícios progressivos.
Em alguns casos, especialmente se o quadro é muito recente, anti-inflamatórios específicos podem ser considerados conforme avaliação clínica.
A mensagem central é evitar imobilismo prolongado: caminhar em ambientes seguros e treinar movimentos de cabeça acelera a compensação.
Enxaqueca vestibular: gatilhos e prevenção
Identificar gatilhos (falta de sono, jejum prolongado, certos alimentos, luzes intermitentes) e organizar uma rotina previsível de sono e alimentação são o primeiro passo.
Quando as crises são frequentes, medicamentos preventivos de enxaqueca podem diminuir intensidade e periodicidade da vertigem. Manter um diário simples dos episódios ajuda a medir resposta e ajustar a estratégia.
O que fazer durante uma crise e como se recuperar depois
A crise de vertigem assusta, mas algumas medidas simples aumentam a segurança e reduzem o tempo até a estabilização.
Primeiras medidas em casa com segurança
Em uma crise intensa, o ideal é deitar em local seguro, manter a cabeça mais parada e focar a visão em um ponto fixo até a sensação diminuir.
Respirar de forma lenta e profunda ajuda a controlar a náusea. Assim que possível, hidratar com goles pequenos e testar movimentos leves de cabeça sentado, para estimular a compensação.
Se a vertigem for posicional, evitar movimentos que disparam o giro até realizar a manobra correta faz diferença.
Como evitar quedas e organizar o ambiente
Enquanto a instabilidade durar, vale iluminar bem o caminho até o banheiro à noite, retirar tapetes soltos, usar apoio ao subir escadas e levantar-se com calma. Banhos muito quentes ou prolongados podem agravar a sensação de tontura.
Em idosos, o cuidado com medicações que causam sedação e pressão baixa é essencial para não somar riscos.
Prevenção de recorrências e qualidade de vida
Após a crise, o objetivo é não repetir o susto e recuperar o senso de confiança ao mover a cabeça e andar em ambientes movimentados.
Sono, hidratação, nariz tratado e cuidados com o ouvido
Sono regular estabiliza o limiar de vertigem em muita gente. Hidratação adequada e alimentação fracionada evitam quedas de pressão e hipoglicemias que pioram a instabilidade.
Tratar rinite e sinusite reduz crises inflamatórias que desequilibram o sistema do ouvido. Evitar manipulações agressivas no ouvido e limpezas caseiras com objetos ou líquidos não orientados previne problemas adicionais.
Viagens, exercícios e trabalho: dicas práticas
Em viagens, escolher assentos com menos balanço, manter hidratação e levantar-se devagar diminui desconforto.
O retorno a exercícios deve começar com atividades de baixo impacto e progressão planejada; aulas com movimentos rápidos de cabeça exigem adaptação.
No trabalho, intercalar pausas curtas para olhar ao longe e alongar o pescoço reduz a sensação de “cabeça pesada”, especialmente para quem passa horas na frente de telas.
Fechando o círculo: devolva o chão aos seus passos
Chamar tudo de labirintite deixa o caminho nebuloso. Quando a vertigem é entendida pelo que realmente é, como VPPB, neurite, Ménière, enxaqueca vestibular ou outra causa, o tratamento deixa de ser tentativa e erro.
A crise aguda pede calma e medidas certas; a recuperação exige movimento guiado e consistência. Com informação clara, diagnóstico objetivo e um plano simples de seguir, o mundo volta a ficar parado e você volta a caminhar com segurança.
Então, se você precisar, entre em contato comigo, Dr. Pedro Magliarelli, para marcarmos uma conversa. Será um prazer lhe receber.