Nariz entupido que não melhora, rouquidão que persiste, sensação de corpo estranho na garganta, engasgos ao engolir, ronco alto. Quando os sintomas ficam repetidos e o exame clínico não explica tudo, eu recorro a um método simples e objetivo: a nasofibrolaringoscopia.
Com uma câmera fina e flexível, eu vejo por dentro do nariz, da nasofaringe, da orofaringe e da laringe (cordas vocais) em tempo real, sem cortes e com anestesia local. Isso muda a precisão do diagnóstico e encurta o caminho até o tratamento certo.
O que é a nasofibrolaringoscopia
A nasofibrolaringoscopia (ou nasofibroscopia, videonasofibrolaringoscopia) é um exame endoscópico das vias aéreas superiores realizado no consultório. Uso um endoscópio flexível e fino (fibra óptica/ vídeo), que entra pelo nariz, segue até a nasofaringe, desce à orofaringe e chega à laringe para avaliar cordas vocais e estruturas vizinhas. O exame é dinâmico: observo as estruturas em repouso e em movimento, respirando, falando, cantando vogais, deglutindo.
Esse caráter dinâmico é o ponto forte. Enquanto uma tomografia mostra anatomia estática, a nasofibrolaringoscopia mostra o que acontece de verdade quando você respira, fala e engole. Registro fotos e vídeo quando preciso, explico as imagens ao final e entrego laudo claro com os achados e a conduta proposta.
Exame endoscópico para vias aéreas superiores
As regiões que avalio no exame incluem:
- Fossas nasais e septo: válvula nasal, conchas (turbinas), presença de edema, secreção, pólipos.
- Nasofaringe: adenoide (em crianças e adultos), óstios tubários, refluxo de secreção.
- Orofaringe: palato, úvula, amígdalas, parede posterior.
- Laringe: pregas vocais (mobilidade, fechamento, mucosa), pregas vestibulares, epiglote, aritenoides, sinais de refluxo.
Com isso, esclareço causas de obstrução nasal, rouquidão, tosse crônica, pigarro, engasgos, ronco e apneia do sono, além de investigar lesões (pólipos, tumores, granulomas), alterações anatômicas e inflamações.
Quando o exame é indicado
Indico nasofibrolaringoscopia quando a história e o exame físico não são suficientes para fechar o diagnóstico, quando preciso medir a extensão de uma doença ou quando o tratamento não evolui como esperado. É um exame de primeira linha em otorrinolaringologia para responder perguntas objetivas.
Rouquidão, dificuldade para engolir e obstrução nasal
Cenários frequentes:
- Rouquidão persistente (mais de 2–3 semanas): avalio cordas vocais, mobilidade, presença de nódulos/pólipos/cistos, granulomas e edema de Reinke; pesquiso paresia/paralisia.
- Dificuldade para engolir (disfagia), engasgos, sensação de “caroço” (globus): observo palato, base de língua, valécula, epiglote, pregas e ensaios de deglutição para flagrar aspiração ou resíduos.
- Obstrução nasal: documento desvio de septo, hipertrofia de conchas, pólipos nasais, secreção purulenta (sinusite), válvula nasal.
- Tosse crônica, pigarro, ardor: busco sinais de refluxo laringofaríngeo (hiperemia/edema em regiões típicas), associei a outros dados para definir o plano.
- Ronco e apneia do sono: avalio pontos de estreitamento (nariz, palato, base de língua), colapso dinâmico e hipertrofia de amígdalas/adenoide; isso ajuda a personalizar tratamento,
- Alergia crônica e sinusites: verifico edema difuso, conchas reativas, pólipos e meatos obstruídos; diferencio inflamação de barreira anatômica.
- Sangramento nasal de repetição: procuro áreas de fragilidade, telangiectasias, crostas.
- Acompanhamento pós-operatório: documento cicatrização após septoplastia, cirurgia endoscópica dos seios, faringoplastias e microcirurgia de laringe.
- Suspeita de tumor: encontro lesões suspeitas em nariz, nasofaringe, orofaringe ou laringe; quando necessário, encaminho para biópsia dirigida e exames complementares.
Em crianças, o exame é especialmente útil para dimensionar adenoide e amígdalas, investigar ronco, apneia e respiração bucal, decisões mais seguras e cirurgias realmente indicadas quando precisam.
Como é realizado o procedimento
O procedimento é rápido e bem tolerado. Eu explico cada passo antes de começar. Em geral, todo o processo, da chegada à conversa final, leva 15 a 25 minutos.
Uso de fibra óptica flexível e anestesia local
1) Preparação
- Você permanece sentado.
- Aplico anestesia local e, quando necessário, descongestionante tópico nas narinas (spray).
- Confirmo alergias, uso de anticoagulantes e histórico de sangramentos. Em casos raros de náusea/ansiedade intensas, posso adotar manobras para reduzir reflexos; sedação não é rotina.
2) Introdução do endoscópio
- O endoscópio flexível (fininho) entra suavemente pela narina com melhor passagem (às vezes examino ambas).
- Eu visualizo septo, conchas e válvula nasal; sigo para a nasofaringe (atrás do nariz), desço à orofaringe e chego à laringe.
3) Avaliação dinâmica
- Peço que respire normalmente, fale vogais/ palavras curtas e engula quando orientado.
- Observo mobilidade das pregas vocais, fechamento glótico, tônus das paredes laterais, epiglote, secreções e pontos de contato.
4) Registro e explicação
- Posso fotografar/filmar trechos relevantes para documentar.
- Ao terminar, reviso as imagens com você e explico os achados e próximos passos.
Conforto e segurança: a sensação costuma ser de pressão/cócega interna no nariz e leve vontade de espirrar; não é para dizer que dói. Algumas pessoas lacrimejam ou sentem nariz escorrer por alguns minutos, é normal. Risco de sangramento leve existe, mas é raro e cede com compressão. A voz pode parecer “estranha” por poucos minutos pelo efeito da anestesia.
Sedação? Quase nunca é necessária. A grande maioria dos pacientes, inclusive crianças maiores, tolera bem com anestesia local e explicação. Reservo sedação para situações especiais, em ambiente apropriado.
O que o exame pode diagnosticar
O que mais valorizo é responder perguntas claras: de onde vem a obstrução? por que a voz está rouca? há risco de aspiração? existe lesão estrutural? O mapeamento em vídeo reduz tentativas e erros.
Pólipos, tumores, inflamações e alterações anatômicas
Nariz / Seios da face
- Rinite (edema de conchas, secreção clara), rinossinusite (secreção espessa, pontos de drenagem), pólipos nasais, desvio de septo, válvula nasal estreita.
- Perfurações de septo, crostras e áreas de sangramento recorrente.
Nasofaringe
- Adenoide aumentada em crianças e alguns adultos; avaliação de ósteos tubários (ventilação do ouvido).
- Massa/lesão em coana/nasofaringe (encaminho para biópsia quando necessário).
Orofaringe
- Amígdalas hipertróficas, palato redundante, pilares volumosos; causas de ronco e estreitamento.
- Alterações funcionais que prejudicam a deglutição (resíduos, subida de alimento para cavidades).
Laringe (cordas vocais)
- Nódulos, pólipos, cistos, edema de Reinke, granulomas;
- Paresia/paralisia de prega vocal (fechamento incompleto, voz soprosa);
- Sinais de refluxo (edema/hiperemia em regiões típicas);
- Tumores/lesões suspeitas que precisam de biópsia dirigida e estadiamento.
Sono / Via aérea
- Padrões de colapso do palato, hipertrofia de amígdalas/adenoide, base de língua volumosa; ajudam a personalizar manejo de [Ronco] e [Apneia do sono] em conjunto com polissonografia.
Pós-operatório e planejamento
- Checo cicatrização após septoplastia, cirurgia endoscópica dos seios, faringoplastias, microcirurgia de laringe e retornos para ajustar condutas.
- Antes de cirurgias funcionais, a endoscopia ajusta a estratégia (onde abordar, o que preservar, o que reforçar).
Cuidados após a nasofibrolaringoscopia
A recuperação é imediata. Você sai do consultório conversando normalmente. Mesmo assim, algumas orientações simples ajudam a evitar incômodos.
Recuperação imediata e orientações médicas
- Alimentação: por causa da anestesia, a garganta e o nariz podem ficar “adormecidos” por um curto período. Sugiro aguardar 30–60 minutos para comer/ beber, evitando quentes nesse intervalo.
- Nariz: pode haver escorrimento/espirros leves por algumas horas. Se ocorrer sangramento discreto, comprima a narina com um gaze/lenço por alguns minutos e evite assoar o nariz no mesmo dia.
- Atividades: vida normal. Se você é cantor/ palestrante, pode retomar; se concentro o exame na laringe, eu explico limites nas primeiras horas.
- Medicações: não é rotina prescrever remédios após o exame. Se você usa anticoagulantes, mantenha o esquema habitual (eu já avaliei isso antes do exame).
- Resultados e plano: entrego laudo e registro quando aplicável, explico o que vimos e o que fazer: tratamento clínico (sprays, lavagem, controle de refluxo), fonoaudiologia, exames complementares (ex.: polissonografia), ou encaminhamento para cirurgia quando há indicação clara.
Sinais de alerta incomuns (sangramento contínuo, dor intensa, febre) pedem contato imediato, e eu deixo isso por escrito.