Dificuldade para entender conversas em ambientes barulhentos, vontade de aumentar o volume da TV, zumbido que não some, sensação de ouvido “tapado”. Esses sinais pedem uma medição objetiva da audição. A audiometria é o exame que eu utilizo para mapear como o som chega e é percebido pelo seu sistema auditivo. 

Com ele, consigo identificar perdas, medir o grau, diferenciar se a alteração é do mecanismo de condução (tímpano/ossículos) ou da percepção (cóclea/nervo), e orientar com segurança o tratamento clínico, cirúrgico ou com tecnologia auditiva.

O que é a audiometria e para que serve

Audiometria é um teste padronizado que mede os limiares de audição (o menor volume que você percebe) em diferentes frequências (graves, médios e agudos), além da compreensão de fala. O resultado é lançado em um gráfico chamado audiograma.

Ao solicitar esse exame, minha meta é objetivar queixa e exame físico: confirmar suspeitas (por exemplo, perda condutiva por perfuração do tímpano), quantificar o impacto funcional (grau de perda), acompanhar evolução com o tratamento e documentar para indicar recursos amplificadores (aparelhos) ou cirurgias quando fazem sentido. Em zumbido, por exemplo, a audiometria costuma revelar padrões que explicam o sintoma e direcionam a conduta.

Identificação de perdas auditivas e monitoramento da audição

Eu uso a audiometria para:

  • Detectar precocemente perdas em quem convive com ruído (música, indústria, construção) e em usuários de fones por longos períodos;
  • Diferenciar perda condutiva (tímpano/ossículos) de neurossensorial (cóclea/nervo) e de perda mista (ambas);
  • Acompanhar doenças do ouvido (otites crônicas, otosclerose, colesteatoma), efeitos de medicações ototóxicas e evolução após cirurgias;
  • Avaliar indicação e regulagem de aparelhos auditivos e implantes (condução óssea ou coclear);

Estabelecer linha de base antes de tratamentos que podem impactar a audição.

Tipos de audiometria

Não existe “uma” audiometria. Eu seleciono o conjunto de testes de acordo com a idade, a queixa, o histórico e a hipótese diagnóstica. Em crianças pequenas, adapto a estratégia para transformar o exame em uma “brincadeira dirigida” (audiometria lúdica/condicionada).

Tonal, vocal e de altas frequências

Audiometria tonal liminar: é a base do exame. Mede o limiar de audição em cada frequência (geralmente 250 a 8.000 Hz) por via aérea (fone) e por via óssea (vibrador mastoide). Se a via aérea está pior que a via óssea, há um “gap aéreo-ósseo” indicando componente condutivo. Se ambas estão igualmente elevadas, o padrão é neurossensorial. O traçado (descendente, em rampa, em “U”, em ilha) dá pistas sobre causa e prognóstico.

Audiometria vocal (fala): avalia detecção e compreensão de palavras:

  • SRT (Speech Reception Threshold): menor nível em que você reconhece palavras;
  • Índice de Reconhecimento de Fala/SDS: porcentagem de palavras repetidas corretamente em volumes confortáveis.

Isso traduz a audição para o mundo real: alguém pode ouvir tons puros razoavelmente, mas entender mal a fala com ruído, e a audiometria vocal mostra isso e influencia a escolha de tecnologias e treinamentos.

Audiometria de altas frequências: estende a avaliação para acima de 8 kHz (até 16–20 kHz, conforme o equipamento). Útil em zumbido, ototoxicidade, músicos e vigilância precoce de perdas. Muitas queixas começam nos agudos; detectar cedo muda o plano de proteção/treino.

(Em cenários específicos posso lançar mão de testes complementares como campo livre, útil para avaliar aparelhos/implantes , peep-show em pediatria, e medidas objetivas como emissões otoacústicas e potenciais evocados quando a colaboração é limitada. Embora não façam parte do “núcleo” deste texto, eu explico caso a caso se for preciso incluir no seu exame.)

Quando realizar o exame de audiometria

Eu recomendo audiometria sempre que há queixa auditiva ou fatores de risco. Também indico como check-up para quem depende da audição no trabalho (professores, músicos, teleatendimento) e para monitorar a audição ao longo do tempo.

Sintomas de perda auditiva e acompanhamento preventivo

Procure avaliar se você:

  • Pede para repetir frases, principalmente com barulho ao redor;
  • Aumenta o volume da TV ou do celular e ainda acha “baixo”;
  • Tem zumbido (apito, chiado, panela de pressão) constante ou intermitente;
  • Percebe dificuldade em localizar de onde vem o som;
  • Sente pressão/“tampão” no ouvido sem secreção;
  • Trabalha em ambiente ruidoso (música alta, indústria, construção) ou usa fones por muitas horas;
  • Teve infecções repetidas, perfuração do tímpano, cirurgia de ouvido ou trauma acústico;
  • Usa/ usará medicações que podem afetar a audição (eu oriento quando isso se aplica).

Em crianças, sinais indiretos chamam atenção: atraso de fala, não responder a sons fracos, trocar letras na escola, aumentar demais o volume de vídeos. Nesses casos, faço um caminho lúdico para testar sem estressar.

Como é feito o exame de audiometria

O exame deve ser confortável e explicado. Eu padronizo cada etapa para que o resultado seja confiável e comparável no tempo. A duração média varia conforme o protocolo, mas muitas vezes fica entre 20 e 40 minutos.

Etapas do teste e equipamentos utilizados

1) Conversa e inspeção: alinho queixa, histórico (infecções, zumbido, tontura, exposição a ruído, medicações), lado pior e situações em que a dificuldade aparece (restaurante, reuniões, vídeo-chamadas). Examino o meato e o tímpano com otoscopia: cera impactada, tampão de secreção ou perfuração mudam o resultado e precisam ser considerados/ resolvidos.

2) Ambiente e equipamentos: o teste acontece em cabine acústica com audiômetro calibrado, fones (inserção/ supra-aurais) e vibrador ósseo. Para a fala, uso lista de palavras padronizada e microfone. Todo o equipamento é calibrado periodicamente para garantir precisão dos limiares (em dB HL).

3) Audiometria tonal: você ouvirá bips de diferentes frequências/volumes. A cada som percebido, responda (botão ou mão). Começo pelo ouvido melhor, via aérea; depois via óssea. Se houver diferença grande entre os ouvidos, aplico mascaramento no melhor ouvido para isolar o teste do pior (isso evita falsos resultados).

4) Audiometria vocal: peço que repita palavras que eu digo em intensidades variadas. Isso revela o limiar de reconhecimento e a percentual de acerto em volume confortável. Em quem usa aparelho auditivo, posso testar com e sem o dispositivo (campo livre) para documentar benefício.

5) Alta frequência e/ou testes especiais: quando indicado, amplio a faixa para acima de 8 kHz. Em pediatria e em casos com pouca colaboração, ajusto a abordagem (condicionamento lúdico, reforço visual, tonais condicionados). Se necessário, complemento com medidas objetivas (emissões/evocados) em agenda combinada.

6) Discussão imediata: ao final, explico o audiograma e traduzo para situações reais: telefone, reuniões, sala de aula, restaurante. Esse momento é crucial para definir próximo passo (tratamento clínico, cirurgia, proteção, tecnologia, acompanhamento).

Interpretação dos resultados

O audiograma traduz a sua audição em linhas e números. Eu olho para o desenho do traçado, para a relação entre via aérea e via óssea, para a simetria entre os ouvidos e para o índice de fala. Juntos, isso conta a história do seu ouvido.

Como o otorrino avalia o grau de perda auditiva

De forma geral (em adultos):

  • Audição dentro da normalidade: limiares até cerca de 20–25 dB HL;
  • Perda leve: ~26–40 dB HL — dificuldade com fala baixa e em ruído;
  • Perda moderada: 41–55 dB HL — perde detalhes em conversas comuns;
  • Moderada-severa: 56–70 dB HL — precisa de esforço constante;
  • Severa: 71–90 dB HL — só percebe vozes altas/sons fortes;
  • Profunda: >90 dB HL, depende de amplificação robusta/implante.

Outros pontos que eu considero:

  • Padrão da curva: descida nos agudos sugere lesão coclear típica de ruído/idade; caída nos graves aponta para outras hipóteses; curvas “em ilha” podem sugerir otosclerose ou alterações específicas de condução.
  • Gap aéreo-ósseo: quando presente, há componente condutivo (tímpano/ossículos). Isso muda a chance de cirurgia ajudar (ex.: timpanoplastia, estapedotomia).
  • Assimetria entre os ouvidos: diferenças importantes pedem atenção extra e, às vezes, investigação adicional.
  • Voz: SRT compatível com os limiares tonais e índice de reconhecimento alto sugerem bom potencial de compreensão com amplificação adequada; índices ruins exigem estratégias adicionais (treino auditivo, leitura labial, tecnologias específicas).

Com esse mapa, discuto opções: controle de otites, perfurações e otosclerose cirurgicamente quando indicado; reabilitação com aparelhos auditivos (testes com fones de inserção/campo livre) e, em perdas severas/profundas que não respondem, avaliação para implante coclear. Para zumbido, a análise do traçado orienta terapias sonoras e medidas comportamentais.

 

Perguntas Frequentes

Não. É um exame não invasivo. Você fica em uma cabine acústica confortável, usando fones. O som começa baixo e aumenta aos poucos. A parte de via óssea usa um vibrador encostado atrás da orelha, pode pressionar levemente, mas não dói. Se em algum momento você se sentir desconfortável, eu pauso e ajusto.

A tonal mede o limiar de detecção de sons puros em diferentes frequências, por via aérea e óssea. É o mapa da sua audição. A vocal mede como você entende palavras em diferentes volumes, aproximando-se da vida real. A combinação das duas mostra quanto você escuta e quanto entende, o que é essencial para decidir tratamento e tecnologias.

Em geral, não há preparo complexo. Algumas orientações ajudam: evite ruído intenso nas horas anteriores ao exame (shows, ferramentas barulhentas), não use algodão/tampões no dia do exame, e, se estiver com resfriado forte ou cera impactada, avise, pois posso avaliar e reagendar se isso distorcer o resultado. Traga exames anteriores para comparar.

Depende do seu perfil:

  • Sem queixas e sem risco: check-up a cada 1–2 anos é razoável.
  • Exposição a ruído/profissões de alta demanda auditiva: acompanhamento anual (ou conforme legislação/ocupacional).
  • Doenças do ouvido, uso de medicações ototóxicas, aparelhos em adaptação: semestre a anual, a depender do caso.
  • Crianças: calendário individual, mais próximo quando há atraso de fala, otites frequentes ou histórico de otite serosa.